Projeto do Lions leva hortas a escolas e incentiva alimentação saudável em Santa Maria


Fotos: Vinicius Becker (Diário)

Há quase sete anos, a rotina da Escola Municipal Chácara das Flores, no bairro de mesmo nome, ganhou um reforço verde e coletivo. Toda sexta-feira, voluntários do Lions Clube Santa Maria Dores colocam a mão na terra ao lado de alunos e professores para cultivar uma horta que vai muito além da produção de alimentos: ela virou ferramenta de aprendizado, incentivo à alimentação saudável e aproximação com o meio ambiente.

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A iniciativa é coordenada por Carlos Roberto Santos de Oliveira, 67 anos, do Lions Clube, que acompanha de perto o desenvolvimento do projeto. Ele explica que a ideia surgiu ainda durante sua pós-graduação em gestão ambiental e, desde então, vem sendo ampliada. Hoje, já são 12 escolas atendidas, inclusive em cidades vizinhas da região. Segundo ele, o trabalho é contínuo e envolve desde o plantio até a colheita e manutenção dos canteiros, sempre com participação dos estudantes. Para o voluntário, ver o interesse das crianças e o impacto no dia a dia delas é o que mais motiva: 

- Eles já saem para o recreio e vêm correndo perguntar se tem algo para fazer - conta Carlos.

Carlos é o fundador do projeto e além da horta, também ajuda em melhorias gerais na escola

Na Chácara das Flores, onde o projeto está mais consolidado, a horta passou por uma evolução ao longo dos anos. O espaço, que começou de forma simples, foi sendo estruturado com o apoio do Lions e da comunidade escolar. A diretora Juliana Cezimbra, 38 anos, destaca que a parceria foi essencial para dar continuidade ao projeto, já que a escola não tinha equipe disponível para cuidar da horta. Segundo ela, além de complementar a merenda com alimentos orgânicos, o projeto também influencia diretamente os hábitos dos alunos, que passam a consumir mais verduras e até replicar o cultivo em casa.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Com quase 400 estudantes, a escola percebe os reflexos da horta dentro e fora da sala de aula. Juliana conta que, durante a pandemia, os alimentos cultivados foram distribuídos junto com cestas básicas. Hoje, o impacto vai além da alimentação e alcança as famílias

- Os alunos trazem muitos relatos, dizem "profe, agora eu como mais salada", "aprendi a comer frutas", porque a gente leva eles para a horta e vai trabalhando essa questão da alimentação saudável. É um trabalho conjunto com as professoras em sala de aula. Eles participam de todo o processo, veem o que foi plantado, colhem e depois consomem no lanche aquilo que ajudaram a produzir. Isso gera um desenvolvimento e uma nova perspectiva sobre alimentação, que eles também levam para casa. Às vezes, damos mudas para levarem, e muitos acabam plantando em casa. É uma reação em cadeia que vai melhorando os hábitos alimentares deles - conta a diretora.

Juliana é diretora da escola e reconhece os benefícios do projeto

Na prática pedagógica, o contato com a terra vira aprendizado. A professora Sirlene Filipovitch, 56 anos, trabalha a horta como ferramenta de educação ambiental e conexão com a natureza. Ela observa que muitas crianças chegam sem reconhecer alimentos básicos e passam a entender todo o processo, do plantio ao consumo. Para ela, esse vínculo faz diferença:

- Eu gosto muito de trabalhar essa conexão da criança com a natureza, porque acredito que, se ela aprende a plantar, também aprende a cuidar, a preservar e desenvolve um sentimento de pertencimento com o meio ambiente. No início, eles chegam aqui e perguntam: "O que é isso?". Porque muitos não conhecem os alimentos. Quando começam a plantar, cuidar e acompanhar o crescimento, passam a colher e consumir o que produziram. É um processo constante de plantar, cuidar e comer — e eles gostam muito. Isso também ajuda a reduzir o consumo de alimentos industrializados e a produzir menos lixo, despertando uma consciência ambiental desde cedo. É uma sementinha que a gente vai plantando - explica a professora.

Sirlei trabalha com a horta de várias formas na escola

O entusiasmo dos alunos aparece nas pequenas descobertas, como plantar mandioca:

- Quando perguntei qual era a cor da mandioca, eles disseram que era branca, porque estão acostumados a ver ela já descascada. Quando levei a rama, muitos acharam que eram galhos secos. Aí expliquei que cada pedaço vira uma muda, que a gente planta e depois colhe. Eles acompanharam todo o processo e depois consumiram a mandioca aqui na escola, em uma preparação com molho. Foi uma experiência muito interessante, tanto que até hoje tem aluno que lembra e comenta que comeu e gostou da mandioca - relembra Sirlei.

A aluna do quinto ano Marina Ortiman Pacheco, 11 anos, conta que gosta de participar das atividades envolvendo a horta


Entre os produtos plantados, a horta conta com quiabo, alface, couve, tomate, hortelã, pimenta e até feijão cultivado na cerca.


Do plantio ao empreendedorismo

Na Escola Pedro Kunz, no bairro Passo das Tropas, o projeto ainda está em fase de replantio, mas já mostra resultados. A vice-diretora Simone Tomazetti Mello, 50 anos, conta que, no ano passado, a produção foi suficiente não só para a merenda, mas também para comercialização em uma feira escolar, envolvendo os alunos em práticas de empreendedorismo.

Patricia Santos de Lima, 47 anos, professora do 2º ano, explica que a horta é trabalhada ao longo de todo o ano letivo. Os alunos participam de todas as etapas: desde a preparação da terra até a produção de temperos desidratados, vendidos na feira da escola. A atividade também inclui educação financeira, já que o dinheiro arrecadado é revertido em benefícios para a turma.

Segundo ela, o projeto é completo porque integra diferentes aprendizados: 

- É um projeto completo, em que eles interagem com a natureza, mexem na terra e entendem que do meio ambiente também pode vir sustento e economia para a família. Muitos já têm horta em casa, outros começam a fazer, e eles passam a reconhecer os alimentos da horta na merenda da escola. Há vários relatos: dizem que comeram em casa, que querem plantar. Eles também trazem ideias de receitas com o que colhem — com orégano, por exemplo, já querem fazer pizza. Sempre que a gente fala: "vamos para a horta", eles adoram - conta.

Patricia trabalha com a horta durante todo o ano letivo na escola

Impacto direto na merenda

Na cozinha, os resultados aparecem diariamente. A merendeira Priscila Antônio Francisco, 44 anos, utiliza as hortaliças colhidas na própria escola na preparação das refeições. Ela destaca que, além de facilitar o trabalho, o projeto ajuda a introduzir novos alimentos no cardápio das crianças.

Segundo Priscila, muitos alunos passam a consumir verduras que antes rejeitavam. 

- A gente colhe praticamente todos os dias: cebolinha, salsinha, alface, que fazem parte da merenda saudável. É um processo de aprendizagem, porque muitas crianças não consomem esses alimentos em casa e acabam aprendendo aqui a comer cebola, alho, moranga, pimentão. A escola é a segunda casa deles, e é aqui que muitos aprendem a se alimentar melhor - destaca.


As alunas Pérola Ribas e Hadassah Flores Dutra, ambas de 7 anos e alunas do segundo ano, gostam de cultivar os vegetais na horta

Expansão do projeto

Além das duas escolas acompanhadas na reportagem, o Lions Clube Santa Maria Dores, em parceria com a Loja Maçônica Estrela Polar, atua em outras instituições do município e da região. Ao todo, são 12 locais atendidos, entre escolas urbanas e rurais, muitas delas em fase de replantio ou implantação das hortas.

Escolas atendidas no setor urbano de Santa Maria

  • EMEF Vereadora Maria de Lourdes Ramos de Castro - Loteamento Leonel Brizola - Bairro Camobi - 700 alunos. sendo o apoio feito pelo Rotary Clube
  • EMEF Francisca Weimann, foi adquirido canteiros de canos de polietileno e motor para oxigenar a água
  • EMEI Luiza Ungaretti, no Bairro Chácara das Flores, a equipe do Lions levou, roupas usadas e uma banheira, além das sementes para a horta que já foi iniciada

Setor rural:

  • EMEF João Hundertmark, com 184 alunos, a horta está em fase de replantio e faltam poucas flores para plantar.
  • EMEF Intendente Manuel Ribas - Bairro Caturrita - 105 alunos. A horta está em inerte.
  • EMEF Irineu Antolini - Bairro Passo do Verde - 42 alunos. A horta está em fase de replantio.
  • EMEF João da Maia Braga - Passo das Tropas - 340 alunos. A horta está em fase de replantio.
  • ABEFI- Associação Beneficente Evangélica, para receber crianças em situação de risco, são seis canteiros, plantados em floreiras retangulares.
  • EMEF Nossa Senhora da Conceição,105 alunos, a horta será implantada este ano.

Em São Sepé

  • Escola Municipal Clemenciano Barnasque - horta está em fase de replantio.


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